quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Dia 5 - Yellowstone

Acordava com um sentimento muito estranho. Era impressao minha, ou fazia frio, muito frio fora do saco cama? Apesar de ter o corpo quentinho, sentia uma sensaçao muito estranha na cara... ao sair do saco cama dei-me conta que não era apenas uma sensaçao. Fazia de facto muito frio. Ao entrar no carro para ir tomar o duche matinal, o termómetro marcava 34ºF. Traduzido em língua cristã, apenas 1ºC. Em JULHO!!!! Como já disse, no parque as amplitudes térmicas sao extremas e este foi o dia em que fez mais frio. Nao sei se durante a noite a temperatura terá sido menor, mas esta era a temperatura às sete e meia da manha.

O plano para o dia consistia em ver o que nos faltava do parque. Bem, o que faltava, tendo em conta os pontos mais famosos do parque, porque é fácil perderem-se meses no parque sem se ver tudo. O dia estava fresco e ventoso. O lago yellowstone, na sua área mais exposta aos elementos, apresentava ondas e cristas brancas, tal era o vento.



Na estrada para Canyon, uma multidao olhava para algo ao longe. Em yellowstone, onde há uma multidao, principalmente fora de pontos chave, significa algo: animais. Assim se vêm ursos, bisontes, e, neste caso, um lobo. Era manha, cedo, nao propriamente a hora mais sugestiva de que iríamos encontrar um lobo. Mas, ali estava ele. Pouco a pouco ia-se aproximando, indiferente à multidao delirante que nao parava de fazer comentários e tirar fotografias. Caminhava, sentava-se e olhava à sua volta. E fez isto uma série de vezes, até, contentes com as fotografias que tínhamos tirado, nos termos feito de novo à estrada. Começava bem o dia, podíamos eliminar da nossa lista mais um dos grandes animais que se podem encontrar no parque.




A zona norte do parque é algo mais montanhosa, repleta de árvores. Nalguns pontos, a floresta estendia-se até onde a vista alcançava. Noutras, podiam-se ver algumas clareiras com menor densidade de árvores. Aqui e além, nas áreas mais resguardadas do sol, ainda se podiam ver algumas zonas de neve. Mais uma multidao: tinham visto um urso grizzly. No entanto, já nao deu sinais de vida enquanto esperávamos. Ficava a curiosidade aguçada e um pequeno sentimento de desilusao: 3 dias no parque e ainda nao tinhamos visto nenhum grizzly.




A paragem seguinte seria em Tower falls, mais umas quedas de água, já muito perto da entrada nordeste do parque. Encontrado um local para estacionar, estava bastante concorrido, lá começámos o pequeno trilho que nos levaria até à queda de água. Mais uma desilusao: a queda de rochas tinha feito fechar o trilho que nos levaria à base da queda de água. Lá teríamos que nos contentar com a queda de água, à distância. No entanto, podíamos descer até à praia.

Embora perto, a descida até à praia nao era muito fácil. Íngreme e escorregadia, gravilha, exigia da parte dos mais aventureiros que se recorresse à mais antiga forma de descer: sobre os glúteos, vulgo traseiro. No entanto, e uma vez junto ao rio, a paisagem era bem bonita e a àgua fresca e cristalina, convidando a um mergulho. Mergulho esse que nunca veio, nao só por nao estarmos preparados, mas também porque a corrente era forte e uns rápidos, uns metros mais abaixo, mostravam a sua força.



Mais umas milhas e chegámos à árvore petrificada. Sem ter a imponência do parque natural que possui dezenas delas, nao se pode dizer que se consegue ficar indiferente junto a ela. Já lá estava muito antes de nascermos, e lá continuará daqui a muitas geraçoes. Pode-se no entanto dizer que esta é uma "árvore" afortunada: existem referências a 3 árvores, no entanto, com os anos, visitantes e sobretudo coleccionadores de recordaçoes, resta apenas uma. Afinal, nao é só no nosso país que o património é delapidado.


Mais uma multidao junto à estrada, e, desta vez, um carro dos rangers com as luzes acendidas. Prometia... saímos e seguimos na direcçao da multidao. Nao muito longe, estava um urso pardo. Andando de um lado para o outro, lá se aborreceu e, fruto da temperatura do meio dia, decidiu dormir uma soneca, desiludindo os espectadores. A fotografia nao é a melhor, mais ainda o consegui ver em condiçoes :) mais um urso pardo, mas faltava ainda o meu grizzly. Nao podia ir-me do parque sem ver um deles!


A próxima paragem seria mammoth, sendo o ponto alto mammoth hot springs, nascentes de água quente, que fazem, como irao ver, umas formas fenomenais. Para lá chegar fomos ao longo de cursos de água, vales e colinas, numa estrada em que era impossível cansar a vista.


Liberty cap, uma nascente petrificada

Toda esta é uma área calcária, podendo este ser encontrada toda uma variedade de minerais baseados no cálcio, entre elas, travertino. Pelos vistos este é um dos maiores, senao o maior depósito de travertino no mundo, um mineral bastante apreciado e que forra, entre outros, estruturas como o coliseu de Roma. A área divide-se nos lower e upper terraces, cada um dos quais com formaçoes diferentes.

Em lower terraces, várias pequenas quedas de água, resultado da deposiçao de minerais nas rochas que se encontram sob os diversos "socalcos", arrastados pela água das várias nascentes que se encontram na zona. Numa zonas ainda se encontra água, noutras, já só se podem ver os vários degraus, de tamanhos e formas diferentes.

Palette spring

Palette spring

Palette spring

Palette spring

Palette spring



Vistas as zonas inferiores, uma escadaria levava-nos à parte superior de lower terraces. Aqui abundavam as fontes, coloridas. Yellowstone é um parque dinâmico, mudando de um dia para o outro; esta zona, nao escapa à regra. Nalgumas áreas podem-se observar árvores, ou o que resta delas, que com os anos foram sendo soterradas e envolvidas por depósitos minerais. A água da zona é extremamente mineralizada; ao ser absorvida pelas árvores, sofre um processo de mineralizaçao, "entupindo" os vasos de transporte das árvores; resultado: morrem.

Main terrace

Main terrace

Main terrace

A resiliência da vida...

Várias camadas mineralizadas

Canary spring

Canary spring

Canary spring

Já passava da hora de almoço, o sol, o calor, a fome e sede começavam a dar mostras de si. Descemos, fomos até ao restaurante e tomámos um almoço ligeiro, mas quente. Para variar, mais carne de bisonte. Já sou um fã desta carne, bem saborosa. Descansados os pés e repostas energias, fomos para o carro para completar a segunda parte da área: upper terrace.

Apesar de se poder fazer a pé, a área faz-se melhor de carro e realmente ninguém a caminha. Uma área bonita, semelhante à que tínhamos visto pouco antes. No entanto, nao tao imponente, ficando com a sensaçao que esta área, embora nao completamente, é uma perda de tempo...

Upper terraces

O plano para o dia era ambicioso e já tínhamos feito uma boa porçao do mesmo. A próxima área seria Norris, mas nao chegaríamos lá sem antes ter mais uma surpresa...



Sim, mais uma multidao... na área extava um urso. Grizzly. Uma espera de pouco mais de dez minutos premiou-nos com a sua observaçao. Longe, mas indubitavelmente um urso grizzly. Um bicho enorme, imponente, com o qual preferiria nunca me cruzar (uma semana depois de deixarmos yellowstone, perto do parque, um grizzly matou um turista e feriu outros dois...). Lamento, mas nao há um suporte físico para este evento. A única prova está na minha célulazinha cinzenta :)

Área de Norris: a zona mais quente e geologicamente activa de todo o parque, mudando frequentemente. Com um sem fim de géiseres, fumarolas e nascentes, esta área demorou-nos algum tempo a percorrer, ou nao tivesse um trilho de perto de 5 km. Longo, demorado e nem sempre fácil, mas decididamente valeu a pena. Aproveitei ainda a presença de rangers para perguntar onde seria mais fácil ver o último grande mamífero que nos faltava ver: alces. Animais tímidos e preferindo áreas húmidas, nao sao nada fáceis de ver, para além do seu número ter sido reduzido drasticamente com os fogos que atingiram yellowstone e que reduziram o seu habitat. Ainda assim, poderíamos vê-los infelizmente em áreas às quais já nao poderíamos ir. A sua presença "assombrou-nos" ao longo de toda a viagem, pois talvez tenha sido, dos animais mais típicos, aquele que nao conseguimos ver em todos os sítios que estivemos...












O dia chegava ao fim, mas ainda tínhamos um plano. Ao longo do parque, tínhamos visto, existiam sítios específicos onde os amantes da natureza se aglomeravam ao final do dia, pois eram zonas de passo de animais. No sítio onde ficámos, viemos a saber, tinham visto lobos a caçar no dia anterior. Algumas pessoas conseguiam-nos ver enquanto lá estávamos... claro que tinham potentes binóculos ou monóculos, e nós apenas os nossos olhos. Veados, ainda os conseguimos ver, pequenos pontos que se mexiam ao longe. Agora os lobos, nem vê-los. Uma importante liçao: em próximas aventuras na natureza, um dos items a levar serao binóculos, pois há muito, mas mesmo muito que nos passa ao lado.


Tempo para mais uma situaçao caricata: um senhor bisonte, desejando a vegetaçao mais fresca e terna do outro lado da estrada, decidiu mudar de pasto. Mas, em vez de cruzar, caminhou ao longo da estrada algumas dezenas de metros, completamente indiferente aos carros e pessoas. Claro está, fez as delícias de miúdos e graúdos e terá sido, talvez, o bisonte mais fotografado do dia.







Chegando ao parque de campismo, um susto: a minha tenda?! Pois bem, os ventos fortes, atingindo-a na face maior, tinham-na feito "voar". Tive sorte, pois das 6 estacas de suporte, uma delas, manteve a tenda perto. Doutro modo, lé teria ido eu, no meio da escuridao e na mata, procurar a minha tenda...

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