domingo, 30 de agosto de 2009

As festas

Chegou o Inverno a Michiana. Se nao é Inverno, pelo menos um Outono fresco e chuvoso. Ocasionalmente ainda vemos um céu azul, mas ultimamente apresenta-se carregado de tons cinza e com bastante chuva. As tardes na piscina acabaram, assim como os passeios que tanto gostava de dar até às dunas a ver o lago. É tempo de procurar actividades interiores, como ir a museus, antes de que chegue a neve. Aí, para além de bater o dente, pode-se fazer ski e snowboard...
Mas bem, mais um fim de semana que passou e mais um fim de semana que infelizmente nao me permitiu passear. Para além do maldito tempo (como o odeio), ando aflito a tentar acabar o capítulo do livro que me deram para escrever. Nem sabia eu no que me metia quando disse que gostaria de o escrever... mas pelo menos, quando publicado, serei um pai babado :) Desde o fim de semana passado que tento integrar-me um pouco mais neste meio. Fiz um amigo brasileiro, com quem tenho saído, o que para além de me distrair um pouco, me permite conhecer outras pessoas. Já sei que anda por cá outro português, e já falámos a ver se nos conheciamos. Curioso, que num país estrangeiro ficamos tao felizes por ver gente do nosso país, gente que fala a nossa lingua. Pessoas com quem numa situaçao normal provavelmente pouco ou nada falaríamos, mas que tao longe do nosso país nos parecem um tesouro.
Esta sexta feira, depois de umas noites por bares, fui a uma festa numa casa de estudantes. Sim, daquelas que vemos nos filmes de adolescentes americanos. A principal diferença aqui é que grande parte dos intervenientes era algo mais velhas, com alguns professores, pós doutorados e doutorandos. Claro que, também existiam alguns estudantes. Foi uma experiência deveras interessante, pois uma coisa é aquilo que vemos nos filmes, e outra aquilo que efectivamente se passa na realidade. Mas, curiosamente, esta festa em pouco ou nada diferia dos filmes. Uma vivenda de dois andares, sendo que na parte de baixo decorria o grosso da festa. Na sala, despejada de tudo, dançava-se e ouvia-se musica. Alguém muito animado, saltando ou dançando consegui fazer um buraco no precário chao de madeira... na cozinha, copos, garrafas e garrafinhas um pouco por todo o lado. Cerveja principalmente, mas muitos vinhos e licores também. Num anexo ao lado, dentro de um grande contentor cheio de gelo, um barril de cerveja: bastava chegar e servir. Cá fora, no alpendre e no jardim, as pessoas amontoavam-se e falavam... ou nao. No piso superior estavam os quartos e a casa de banho. Nao faltou o casalinho a ir para o quarto (que vi quando fazia fila para entrar na casa de banho) e descer pouco depois, com uma cara de felicidade extrema.
Provavelmente descrito, pouco ou nenhum interesse tem tudo isto. Realmente, acho que é uma experiência que há que viver. Foi engraçada, fez-me ver na realidade aquilo que só tinha visto e imaginado em filmes.

domingo, 23 de agosto de 2009

Regresso às aulas

Nestes últimos dias, o campus tem-se visto de novo invadido pelos estudantes, que voltam ao colégio. Traz-me à memória o verao de há 12 (!) anos, em que nesta altura passava uns belos dias em Pedras d'el Rei, longe de saber as voltas que a minha vida ia dar, e que dentro de poucos dias, saberia os tao ansiados resultados das colocaçoes, que acabariam com a minha ida para Vila Real. Desse verao, ficou muita coisa, algumas pessoas que permanecem comigo até ao dia de hoje, memórias, sonhos.
Mas a ideia era falar da azáfama com que andam as pessoas por aqui. Desde 4ª-5ª feira passada que entregaram aos estudantes as chaves dos apartamentos, pelo que já se podiam mudar. Aqui, pelo menos no primeiro ano, os estudantes, salvo raras excepçoes, têm que residir no campus. Escusado será dizer que muitos acabam mesmo por passar todo o curso nos dormitórios, pois realmente Notre Dame é como uma pequena cidade, onde se pode ter um pouco de tudo. Anda tudo louco, alunos com os pais, sendo que a grande maioria ostenta orgulhosamente t-shirts, polos, qualquer peça de roupa com o nome da universidade. Antigos estudantes que hoje cá têm os filhos, ou gente que nunca teve qualquer tipo de ligaçao com ND, mas que estao felizes por estar numa das melhores universidades americanas.
Todo o campus está cheio de cartazes, dizem-se que o dormitório X, Y ou Z sao os melhores, e porquê. Pelos vistos há uma certa rivalidade entre dormitórios, em que todos se tentam destacar. Desde cartazes banais, a cartazes com dizeres engraçados, há um pouco de tudo. Sei também que fazem festas, e embora tenha curiosidade em ir a uma dessas festas estudantis, nao creio que tenha a possibilidade de o fazer. Só sei é que com este ambiente, dá vontade de voltar a estuar, aqui nos EUA. Acredito que deva ser uma experiência muito interessante, a todos os níveis...
É bom ver de novo o campus com gente, neste último mês pouca gente se via por aqui. É certo que se acaba a tranquilidade, voltam as filas ao Starbucks para tomar o café matinal ou para almoçar. Mas, no fim de contas isto acaba por ser uma universidade, e bonita, pelo que é um pena estar tao vazia.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

"Dry Sunday"

Este Domingo, depois de passar toda a tarde enfiado no laboratório, decidi fazer uma paragem no supermercado, de caminho a casa. Necessitava comprar comida e aproveitava para comprar também umas cervejinhas (importadas, pois ainda nao bebi uma cerveja americana digna desse nome). Estando na fila, a rapariga da caixa vira-se para mim e pergunta-me: "Nao és daqui pois nao?". Atónito, olho para ela e lá hle digo que nao. Mais atónito fico quando agarra na minha cerveja e me diz "logo vi", retirando-a para o lado. "It's a dry Sunday" disse-me ela.
Tinha-me esquecido: uma ideia idiota desta gente, é que nao se pode vender alcóol, nalguns estados, em supermercados e restaurantes. Bem, nalguns, pois aqueles que pagam uma taxa ficam isentos dessa proibiçao (curioso nao é??). Já me tinham dito que isto existia, mas tinha-me esquecido completamente. De todos modos, decidi fazer uma pesquisa na Internet, e ver exactamente que era essa lei e quais as suas verdadeiras motivaçoes (religiosas).
Descobri que nos EUA existe um tipo de lei que se chama "Blue Law". Segundo a Encyclopaedia Britannica (http://www.britannica.com/EBchecked/topic/70275/blue-law), destinam-se a manter os valores morais da populaçao. Sao leis que começaram a aparecer com os puritanos, no já longínquo século 17, aplicam-se sobretudo aos Domingos e têm uma marcada componente religiosa. Por trás destas boas intençoes, a verdadeira razao destas leis, era permitir a assistência das pessoas aos actos religiosos.
Existem leis diferentes nos vários estados, nalguns já nem sequer existem. Proibem desde a venda de álcool aos domingos, ou pelo menos antes do meio dia à venda/troca de automóveis no mesmo dia. O que a mim me faz uma extrema confusao, num país avançado como pretendem ser os EUA, é que a igreja ainda tenha este tipo de força nas leis, sobretudo leis que datam de há séculos atrás. E que se vejam casos de hipocrisia, como na venda de alcóol, em que basta pagar uma taxa para se poder vender bebidas, ou conduzir cinco minutos e encontrar logo após a fronteira com o Michigan uma loja de bebidas, onde a maioria das matrículas dos carros, nestes dias, é do estado de Indiana...

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Onde pára o Verao?!

Bonita terreola esta onde vim parar... Depois de um fim de semana quente e húmido (infelizmente passado a trabalhar), e depois de uma pequena amostra ontem à tarde, eis que esta manha me deparo com tal chuva que em Portugal, resolveria muitos dos problemas de seca... Menos mal que existe uma coisa que se chama Wal Mart que está aberto 24 horas por dia e me possibilitou comprar um chapéu de chuva às 8 da manha. Ainda assim, os meus ténis mudaram de côr (completamente empapados) e tenho as calças ensopadas até aos joelhos :(
Até que a chuva e bem vinda, mas... estamos em pleno Agosto!! Dentro em pouco acaba o Verao e apenas se notou a sua passagem... Em poucos meses teremos neve e temperaturas a rondar os vinte baixo zero. Uma boa maneira de passar 2009: sem férias todo o ano e sem Verao.
Acho que a próxima aventura (a haver) deveria ser numa zona seca e quente, como o deserto do Sahara ou uma coisa do género... Nao imaginam o deprimente que é ter esta ***** de tempo...

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

¿Um questao de cores?

Curioso como de sítio para sítio as cores podem ter uma conotaçao diferente (ou talvez nao e eu sempre tenha vivido na ilusao). Já nem sei porque motivo surgiu a conversa, mas acabei a falar do significado das cores com a minha colega de laboratório. Pois aparentemente amarelos, vermelhos e laranjas, sobretudo, mas também azuis e verdes claros, sao consideradas cores gays por aqui. Cores essas que sao aquelas que prefiro vestir, sobretudo depois da minha aventura por terras espanholas, terras de calor e alegria. Pelos vistos, ando a passar a imagem de que sou gay... apesar de segundo ela nao falar como um (um ponto a meu favor). Será por isso que no outro dia uma outra rapariga aqui do laboratório me comentou que eu usava cores muito vivas? Será por isso que rodava o boato pela EUVG que eu era gay?
Nao deixa de ser curioso... e preocupante saber destas coisas. Menos mal que tenho um passado, distante e recente que fala por mim (infelizmente já nao um presente). De todos modos, é estranho e incómodo saber que pelo modo com que um se veste pode ser considerado algo que nao é....

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Deveria ter sido contigo...

Lá passou outro fim de semana e lá se tentou dar mais um passeio, ter mais uma história que contar.Porque quando em beve chegue o Outono, estes passeios terminarao e entao no Inverno nao creio que tenha muitas aventuras, a nao ser para contar quantas quedas dei a fazer ski ou como sao bonitas as dunas cheias de neve. Mas bem, teoricamente é Verao aqui (o Verao mais fresco desde que têm registos) e ainda me posso permitir estes pequenos luxos, depois de uma semana de trabalho extenuante. E porquê este título perguntar-se-ao? Pois... apeteceu-me. Alguns de vocês sabem o porquê, outros apenas o supoem e outros nao fazem a menor ideia. Mas um mês de Agosto que deveria ter sido de pura felicidade tornou-se num mês de viragem de rumo. Mas, falemos deste fim de semana, gostaria de partilhar convosco o que consegui ver.


O destino deste fim de semana : Sleeping Bear Dunes National Lakeshore, um parque natural localizado no Norte do Michigan, a aproximadamente 300 milhas desde aqui. Até lá, a viagem toda feita ao longo do lago, com alguns vislumbres ocasionais do mesmo enquanto na autoestrada, e com melhores vistas quando já em estradas de menores dimensoes. Depois de uma sexta feira de sol, mas com ameaãs de chuva, às 7 da manha de Sábado, estava tudo molhado. Tinha chovido, tinhamos uma tempestade sobre as nossas cabeças a ameaçar desabar a qualquer momento e segundo as previsoes haveriam aguaceiros. Pois claro, aguaceiros. As primeiras horas foram feitas sob um imenso temporal, cuja única vantagem foi ter-me lavado o carro. Nao se via nada de jeito, o dia estava horrível e tampouco podiamos explorar todas as potencialidades do motor do meu carro.


A primeira paragem foi em Lundington. Parámos para esticar um pouco as pernas e tomar um cafézinho. E com infelizmente por aqui nao abundam os nossos cafés de aldeia, onde podemos tomar a nossa bica e comer o pastel de nata, tivemos que decidir entre umas quantas cadeias de comida rápida. Optámos entao pelo MacDonalds, que tem feito umas campanhas de pequenos almoços interessantes. Estava cheio. Lá pedimos o nosso pequeno almço, smoothie de banana e morango para mim, com paquecas e sentámo-nos. Passada a hora da promoçao... surpresa, ficou vazio. Para o Americano comum pouco importa comer bem. O que querem é comer muito e barato. E é o que conseguem neste tipo de sítio.

Tomando o pequeno almoço


De volta ao carro, continuámos o nosso caminho, agora com a chuva a dar umas tréguas ocasionais. Digo ocasionais, porque eram apenas breves momentos em que a mesma nos deixava sossegados. Chegámos a Manistee, uma cidade costeira, que me pareceu ser uma cidade sazonal, onde as pessoas têm a sua casa de férias. Fez-me lembrar Amity, do filme o Tubarao. A downtown era bonita, parecendo ter parado no tempo. E corra também ao largo de um rio, pois a cidade localiza-se em ambas as margens da foz do rio do mesmo nome. Uma marina bonita, com enormes barcos carregados de canas de pesca (Saudades...), com praia e farol no fim do molhe. Dizem que aqui as tempestades sao violentas... mas nao imagino uma tempestade violenta deixar de pé estes molhes americanos. Ou isso, ou estou mal habituado aos nossos enormes e resistentes molhes, capazes de suportar um Atlântico enraivecido.

Downtown de Manistee

Com a foz por trás

Entrada da marina

Praia
Tempo de decisoes: seguir pela estrada pricipal, mais rápida mas pelo interior, ou pela estrada do litoral? Optámos pela ultima opçao. E em boa hora que o fizemos. O litoral é algo de fabuloso, verde, carregado de árvores e dunas cobertas de vegetaçao. E casas a meia dúzia de passos da praia... quando for grande quero uma casa asim... os americanos sabem viver bem. Nao me importava nada de ter uma vida como a que têm estas pessoas... sitios bonitos, calmos e junto ao "mar". Quem sabe...
Vista da praia (com uma casa mesmo atrás de mim)
Mais umas milhas de carro e entrámos no parque. O parque corre ao longo de mais de 30 milhas de margem, pelo que entrámos pela entrada Sul. Essa mesma entrada ocorre perto de um rio de águas esverdeadas e bem bonitas, onde se podem alugar caiaques, canoas ou bóias, que segundo o nosso grau de destreza nos deixam a meio do caminho, no Platte Lake, ou directamente até à praia. Como nao era a nossa ideia original, era hora de almoço e os estômagos rugiam de fome, optámos por ir até à praia e deixar a canoagem para o dia seguinte. A praia, ou pelo menos a parte que visitámos, era mesmo na foz do rio. Tomámos o almoço e enquanto os meus companheiros de viagem descansavam, eu dava um pequeno passeio para fazer as inevitáveis fotos que tanto gosto.

Kayaques chegando à praia

Kayaques

Foz do rio

Vista Norte da praia

Cogumelos na areia?!

Sim, sao mosquitos...

Pequena lagoa numa das margens
Comemos, fomos até ao parque de campismo armar as tendas (menos mal que fomos rápido, já só tinham 4 lugares quando chegámos) e fomos dar um passeio pelo parque. De carro, bicicleta ou a pé, podia-se fazer o que chamam a "scenic drive", um passeio de umas quantas milhas dentro do parque, com miradouros e vários caminhos para se fazerem a pé.
Ponte de madeira

Miradouro

Miradouro
Mas o melhor estava para vir. As grandes dunas que desciam até ao lago, com perto de 30 metros de altura. Uma vertente pouco apta para gente com vertigens (e eu que padeço desse mal bem sofri nos primeiros minutos) e que é "tradiçao" descer. E, como tinhamos vino de tao longe, lá decidimos descer a duna. A descida muito fácil, mas a subida... difícil. Subir tal inclinaçao em areia, que se afunda sob os nossos pés (e eu que nao sou exactamente um peso pluma), nao é aquilo que se chama uma tarefa ligeira. Nesse dia, vi mais gente de quatro, a subir, que a duas pernas... No entanto, vale a pena. A vista, quer desde cima, baixo, ou ao longo do caminho é simplesmente fabulosa e se algum dia lá voltar, penso repetir.

Desde o miradouro


Desde o miradouro (impressionante, nao é?)


Nem o aviso me demoveu
A meio da descida

Descida


Descida
Fundo da duna

Fundo da duna

(eu e as fotogafias dos entardeceres...)

Outro miradouro, com outras dunas ao fundo

O parque de campismo era sossegado, com o básico e alguns "excessos". Os lugares eram bem delimitados, com espaço para o carro, uma mesa e bancos, assador e zona para as tendas. No entanto, nao tinha duches e as casas de banho... com fossas. O cheiro... nauseabundo (acho que há formas melhores de as fazer, mesmo sem saneamento básico). No entanto, serviu para o que queriamos: descansar ao fim do dia e recuperar forças. Estava também pegado à praia, uma praia linda, semi deserta e de àguas cristalinas, embora frias. Depois de todo um dia de esforço, nada melhor que um mergulho, ao por do sol e som uma tempestade com relampagos ao fundo para relaxar um pouco. Soube bem... muito, nem imaginam...

O nosso lugar

A praia

A praia

Águas cristalinas
No diaseguint, decidimos que era melhor voltarmos para casa. Tinhamos tido tempestade durante noite, chovia e havia nevoeiro. Nao era propriamente o clima mais animador para fazer uma viagem. 4 horas de conduçao, trouxeram-nos de volta a casa. Pelo caminho ainda vimos um sinal muito giro: "bear x-ing" (ponto de travessia de ursos) do qual infelizmente nao tenho fotos e parámos em Grand Rapids, outra cidade do Michigan. À chegada, uma temperatura superior a 30ºC e uma humidade de perto de 100%. Resultado: tenda na varanda a secar e uma sesta à beira da piscina e a apanhar sol...
Outras fotos: ao longo de todos estes passeios vou vendo animais e plantas que nao costumo ver naturalmente. Aqui ficam algumas amostras:












segunda-feira, 3 de agosto de 2009

¿O que faço?

Dado que já umas quantas vezes me perguntaram o que faço aqui, acho por bem fazer um pequeno esclarecimento. Bem, o que faço é: absolutamente nada. Parafraseando certas pessoas, ou um preguiçoso que poe os seus interesses pessoais à frente daqueles de quem me paga. Nao resisto a uma facadinha, embora saiba que os destinatários desta pequenita frase nao lêm este blog :) sim, sao aqueles que estao agora mesmo a imaginar.
Mas bem, mais seriamente, o que faço aqui é trabalhar com enzimas. E quais enzimas? Um dos mecanismos pelos quais as bactérias resistem à acçao nefasta dos antibióticos é através de enzimas que modificam o antibiótico, alterando a sua actividade, ou seja, inactivando-o. Aqui no laboratório trabalhamos com dois tipos de enzimas: acetiltransferases, que inactivam antibióticos que pertencem à família dos aminoglicosídeos e beta-lactamases, que hidrolisam penicilinas, cefalosporinas e carbapenemos, entre outros. Nomes estranhos, mas todos nós, ao longo da nossa vida, já os utilizámos, embora com outros nomes.
E a que nos dedicamos nós? Basicamente, tentamos colocar-nos um passo em frente das bactérias. É certo e sabido que assim que se começa a utilizar um antibiótico novo, rapidamente surgem resistências. Assim que, nos dedicamos a introduzir mutaçoes nos genes que codificam essas proteínas, tentando de algum modo prever aquilo que poderá acontecer na natureza. Umas vezes acerta-se, outra vezes nao, mas... fica-se a conhecer um pouco mais as enzimas e o modo como funcionam.
Entao, depois de termos os nossos mutantes, vem o passo seguinte: fazer com que a nossa amiga Escherichia coli, produza menos das proteínas que naturalmente produz e se dedique a produzir a nossa de uma forma exagerada, hiperexpressada. Umas vezes consegue-se à primeira, outras vezes é uma questao de diplomacia, e tentamos encontrar uma soluçao de consenso, que deixe quer a bactéria feliz que a nós produzindo um mínimo de enzima. Neste aspecto as bactérias sao como as mulheres: caprichosas (perdoem-me...).
Passo seguinte: purificar a proteína, a partir da mistura de proteínas que se encontra na célula. E como? Primeiro que tudo, utilizando uma arma desenvolvida pelo Departamento de Defesa dos EUA, numa cave recôndita do Pentágono: uma máquina de ultrasons. Esses ultrasons destroem a cobertura da bactéria, a parede e membrana celular, permitindo o acesso ao seu cobiçado interior. Depois, utilizando umas resinas especiais, há que proceder à separaçao das proteínas, com base na sua polaridade, tamanho ou carga eléctrica.
Uma vez obtida a proteína, vem aquela parte que teoricamente deveria ser a mais simples, mas que frequentemente se torna a mais complicada. Faço duas coisas: cinética enzimática, em que determino através de umas fórmulas matemáticas "manhosas" diversos parâmetros que influem na actividade da enzima sobre o antibiótico e cristalografia, onde, sujeitando a minha enzima a diversas condiçoes, tento obter cristais de proteína.
Findo tudo isto, (in)felizmente há que sentar-se, analisar os dados e escrever. Infelizmente, porque ainda nao cheguei a esta parte, mas felizmente, pois embora goste muito do trabalho de bancada, sentar-me para escrever nao é o que mais gosto.
E custa? É raro o dia em que nao há um problema, ou uma questao que se coloque ao longo do trabalho. Também nao há um dia em que passe menos de 10 horas a trabalhar, ocasionalmente também ao fim de semana (felizmente aqui sao só um par de horas). Mas... é bom podermos fazer aquilo que gostamos, num sítio onde nos proporcionam aquilo que necessitamos e onde "apenas" nos pedem que trabalhemos e apresentemos resultados. Que trabalhemos naquilo para o que fomos contratados, aquilo que sabemos fazer...

sábado, 1 de agosto de 2009

Chicago

Este sábado, nova aventura. Decidi ir conhecer o meu terceiro estado dentro dos EUA: Illinois, mais propriamente a cidade de Chicago. A aventura começou cedo, digamos que a partir do aeroporto de South Bend, onde deveria ter estado no dia anterior... mas isso sao outras histórias. Desta vez nao fui sozinho, consegui convencer (?) a minha colega Hilary e lá fomos nós. Desta vez, o meu de transporte foi o comboio: demora apenas duas horas e meia (perto de uma hora mais que de carro), mas pára na downtown, onde se encontra aquilo que mais interessa. Acaba por sair também mais barato, pois existem portagens e estacionamento que pagar em Chicago, enquanto que aqui paguei apenas 1 dólar pelo estacionamento, mais o bilhete.


O comboio, normalíssimo. Mas nada mais chegar dei-me conta de uma coisa: enquanto conheço comboios em vários países, e durante várias horas, em portugal apenas andei de comboio. Nao deixa de ser curiosa esta disparidade. Lá foi ele, quase cheio, a boa velocidade enquanto as redondezas eram campos de cultivo e árvores. Infelizmente, nada mais chegar a Michigan City, tornou-se bastante mais lento e a paisagem gradualmente mais tenebrosa. Para além disso, deixávamos um dia lindo em Mishawaka e pouco a pouco o céu azul era substítuido por umas nuvens ameaçadoras, carregadas de água e prontas a deixá-la sobre nós.

Tenebroso. Uma palavra forte. Mas nada mais adequado áquilo que vi. Os subúrbios de chicago... gaanto-vos, nao se querem perder, nem andar por lá, de dia ou de noite. Mas já nao me importava de ver umas quantas pessoas perdidas por lá... tudo o que de mau lhes pudesse passar seria demasiado bom para estes... Aquilo que vemos nos filmes? Pior. Casas decrépitas, em péssimo estado, com a pintura a descascar ou nalguns lados mesmo sem algumas tábuas. Jardins que mais pareciam aterros, tal era a quantidade de porcaria que lá se encontrava, metálico, restos de obras, madeiras... enfim, uma selvajaria. Casas lado a lado, demasiado perto, para mim, sem uma arquitectura constante. Campos de basquetebol vandalizados, nos quais cresciam matagais de ervas daninhas. Grupos de aspecto duvidoso sentados nas entradas das casas, a beber e a fumar. Incluso um noctívago, que sem forças pra entrar em casa aterrou a poucos metros da porta. Isto, em plena luz do dia. Acho os nossos bairros sociais algo mais apetecíveis que estes bairros... Calumet City, Gary... bairros que cresceram demasiado rápido e desordenadamente, repletos de gente de baixo nível cultural e económico. E nao penso estar a ser demasiado duro... tivesse palavras melhores para descrever o que vi, o que senti... e a história seria outra.

Mas bem, lá chegámos a Chicago, fim da linha (literalmente), à estaçao Millenium, que dava directamente para o parque do mesmo nome. Saindo, subindo uma escadas... e voilá, ali estava eu, em pleno Chicago. Mas bem, que representa Chicago nos EUA? É apenas a terceira maior cidade dos EUA e uma das mais importantes economica e culturalmente a nível global. É também donde saiu o "meu" acual presidente, Obama. Localiza-se na margem oriental do lago Michigan e é atravessada por um rio cujo nome nao me recordo.

Primeiro impacto... impressionante. Edifícios enormes, olhasse para onde olhasse (dizem que é o berço de nascimento dos arranha céus). De certa forma uma cidade tao parecida às nossas, mas ao mesmo tempo tao diferente... É difícil acha palavras que a descrevam, excepto que é decididamente um sítio ao qual quero voltar e ao qual já deveria ter ido há muito. O plano de acçao era perdermo-nos pela cidade, andar pelas suas ruas e pela marginal, incluso subir a uma das suas torres e ver a vista. Infelizmente o tempo nao ajudou, estava nublado, chuviscava e fazia vento (por algo lhe chamam a cidade ventosa).



À saída da estaçao

O passeio ao longo da margem levou-nos até ao molhe naval, onde uma alma iluminada construiu um parque de diversoes. Roda gigante, carrósseis, restaurantes, luzes e sons para adultos e crianças... Impossível nao se passar um bom tempo ali. Já antes tinha-mos passado pela marina, onde os barcos mais modestos custariam mais que o meu salário anual. Descobri também que ter um bom barco, significa conseguir ter umas belezas americanas no seu interior... vi dois barcos bem impressionantes (caros), onde qualquer uma das raparigas poderia ser portada de revista...


Vista do molhe naval

Sim, estes becos existem... e há-os mais tenebrosos. Imaginem de noite...



Auditório de centro de espectáculos


Edifício do Chicago Tribune





Estátua no molhe naval



Vista desde o molhe naval


Vista desde a avenida marítima







Demos mais umas voltas, fiquei mais umas vezes de boca aberta com alguns edifícios e dirigimo-nos para o Millenium Park. Antes, paragem para almoço num café italiano, onde consegui comer o primeiro pao decente em 4 meses (como voa o tempo... restam-me uns 20 meses por aqui). O parque... impressionante. Localizado entre uma das principais avenidas de Chicago e o lago, ocupa uma imensa área que vale uma fortuna. Ainda assim, preferiram lá construir o parque. Bem arranjado, cheio de flores, estátuas, fontes... vale mesmo a pena, embora, como se costuma dizer, parques há muitos.



Vista desde Lurie Gardens, Millenium Park



Jay Pritzker Pavillion, de Frank Gehry, Millenium Park


Cloud Gate de Anish Kapoor, Millenium Park


Chegando ao fim do dia, hora de voltar para casa. Contente por ter conhecido mais uma cidade, triste por ter apanhado um dia tao mau. Mas voltarei, afinal, está aqui ao lado. Haverá que ver os fabulosos museus, subir e almoçar numa das torres, ir a um bar de Jazz ou de Blues...