Depois de uma bela noite de repouso, que serviu também para diminuir a adrenalina do encontro inesperado no dia anterior, preparámo-nos para apanhar o autocarro até ao final do parque. Tinha chuviscado durante a noite e embora nao chovesse, o dia nao estava bonito. O passe que tínhamos comprado permitia-nos durante os dias que estávamos no parque apanhar os autocarros, em qualquer direcçao e a qualquer hora. O único senao era nao termos lugar assegurado, à excepçao de uma das viagens. Assim, a viagem que tínhamos escolhido era a mais longa, até ao fim do parque, uma antiga área mineira.
| Companheiro de pequeno almoço |
A primeira de muitas paragens seria em Teklanika River, o rio que passava ao longo do parque de campismo. A paisagem era muito semelhante à que tínhamos desde o parque, ou nao estivesse a paragem a uma milha de distância do parque. Para nós que acabávamos de entrar no autocarro era uma paragem demasiado precoce, mas as pessoas que tinham apanhado o autocarro desde o início do parque levavam mais de uma hora de viagem. Desde este ponto (e abençoados binóculos) veríamos as nossas primeiras Dall's Sheep, a razao pela qual o parque foi criado. A olho nu, pequeninos pontos brancos na montanha, com os binóculos podíamos apreciar com algum mais detalhe, embora estivessem bastante longe.
| Dall's Sheep |
Continuámos em direcçao Oeste. O dia continuava sem melhorar e eu desesperava com as fotografias. Céu cinzento, para mim, arruina-me as fotografias (será que tenho que aprender fotografia?). Em certo ponto, uma enorme águia dourada. O nome em português nao sei, mas pareceu-me o equivalente à nossa águia real.
| Águia dourada |
Pouco a pouco passávamos por locais como Sable Pass, uma montanha que de certa forma determina para que lado a água flui na zona, e polychrome mountain, uma zona montanhosa em que os diversos minerais e rochas conferem diferentes cores e tonalidades à montanha...
| Dall's Sheep |
Mais uma paragem em Toklat River, uma grande área de descanso com uma estaçao de rangers e um centro de visitantes. A zona era bonita, mas infelizmente o céu cinzento por trás dos picos montanhosos tirava-lhe muita da beleza.
| Urso Grizzly |
| Dall's Sheep |
Chegados a Kantishna, o autocarro deu meia volta. É uma antiga zona mineira, com muito terreno privado. Os donos nao gostam que as pessoas entrem neles, pelo que os guias nao recomendam grandes caminhadas. De todos modos, nao vi muito interesse na povoaçao.
| Lagópode ao lado da estrada |
Mais uma paragem em Wonder Lake. Neste lago, em dias limpos, pode-se ver o monte Denali (Mckinley) reflectido. Neste dia, nada mais que a densa cobertura de nuvens reflectia no lago. A zona era sossegada, existia nela um outro parque de campismo. Nela vimos também a única espécie de anfíbio do Alasca:)
No Alasca, as pessoas vivem do que a natureza dá. Caça, pesca, muita fruta selvagem, alguns vegetais e... flores. Nao fazem parte da ementa tradicional, mas para aqueles que passam longos períodos na natureza, constituem uma fonte de nutrientes que nao de pode menosprezar. Como gosto de experimentar, e como o guia disse que certa e determinada flor era comestível, tive que tentar... incrivelmente, o sabor era parecido a alface. Acho que com umas pedrinhas de sal, vinagre e azeite podia fazer uma bela salada de fireweed :)
De repente, a cruzar a estrada, uma manada de algumas dezenas de caribous a atravessar a estrada. Sem se preocuparem com os autocarros, com muita pachorra, foram atravessando a estrada. E toda a gente no autocarro a fazer fotografias selvajamente... sao bonitos na natureza mas sao também muito saborosos no prato...
Mas as surpresas nao ficariam por aqui. Algumas milhas mais à frente, um pequeno grupo de lobos decide tomar a estrada... toda a gente extremamente excitada e nao sem razao. De início a uns 100 metros de distância, entraram na estrada e percorreram-na, passando mesmo ao lado do autocarro...
| Cornos de Alce |
| Cornos de Caribou |
À medida que as horas e milhas se acumulavam (no total a viagem tomou mais de 10 horas), o cansaço fazia-se notar...
Na paragem de Teklanika, decidimos deixar o autocarro. Estávamos cansados e queríamos esticar as pernas. Como a distância nao era muita, decidimos caminhar até ao parque ao longo da estrada.
Em boa hora o fizémos, pois vimos uma família de lagópodes mesmo ali ao lado da estrada... ter os pássaros a poucos metros de distância pouco ou nada incomodados com a nossa presença foi um momento único.
Já jantados e algo descansados, decidimos ir dar um passeio pelo rio Teklanika.
Depois de andarmos um pouco pelo rio, devidamente afastados do local onde tínhamos visto o urso, encontrámos um grupo à entrada do parque de campismo a dizer que tinham visto linces a correr no parque. Andámos um pouco à procura deles, mas o máximo que vimos foi umas quantas pegadas. Assim, voltámos às nossas tendas para ir descansar.
Mas uma das melhores suspresas do dia, e para mim um dos pontos altos da viagem, estava por chegar, mesmo atrás das nossas tendas. Comecei a ouvir como que um "cantar", parecia-me um pássaro. Como tínhamos visto os lagópodes perto, decidi ir investigar, levando a Maggie comigo (a Alda tinha ido lavar os dentes, perdendo assim um momento excepcional...). Nao eram lagópodes. E também nao eram pássaros. Eram dois enormes linces, macho e fêmea, no ritual de acasalamento. O macho "cantava" à fêmea... Infelizmente a minha câmara fotográfica estava a uns metros de distância e nao a quis ir buscar para nao os assuatr. Eles olharam directamente para nós, e quando pensei que fossem disparar a correr, viraram-se majestosamente e foram-se embora, lentamente. Segui-os por um pouco até que se embrenharam na floresta... Foi uma das melhores experiências com animais que tive na minha vida, isso posso assegurar :)