terça-feira, 9 de agosto de 2011

Day 2 - Marion Creek - Prudhoe Bay - Galbraith Lake

Depois de uma noite de merecido descanso, preparámo-nos para o segundo dia. Ia ser um dia longo, com muita estrada mas também muitas experiências novas. O dia anterior tinha sido um dia de aprendizagem, uma conduçao difícil numa estrada difícil. Embora tivessemos um carro bom e preparado, nunca tinha conduzido um jipe. E jamais tinha conduzido numa estrada tao má, onde troços de estrada decente alternavam com grandes distâncias de terra batida cheia de buracos.

O pequeno almoço correu bem à excepçao dos muitos mosquitos e outros insectos sedentos de sangue. Os mosquitos nesta altura do ano sao tantos que animais como os caribous perdem uma grande percentagem da sua massa corporal. E os humanos perdem algum sangue, ganham muitas borbulhas e auto flagelam-se numa tentativa va de matar os mosquitos que aterram sobre a pele. Existem tantos mosquitos que os alascanos, na brincadeira, os consideram como a ave mais representativa do estado :) claro que há formas de protecçao frente aos mosquitos, vários produtos de aplicaçao tópica, redes para a cabeça e roupa grossa. Nao basta com "tratar" as partes expostas; os sacaninhas sao tao sacanas que picam através dos tecidos mais finos, encontram aquele milímetro quadrado que nao foi tratado no tornozelo e que fica exposto quando a meia baixa ou nas costas, naquela pequena tira de pele que fica exposta quando nos dobramos. É uma guerra perdida na qual por muitas baixas que lhes inflinjamos jamais evitaremos sermos picados.

Será o lançamento de uma nova moda?!

Neste dia iríamos até ao oceano árctico, ver os campos de petróleo e molhar os pés. Deixaríamos a zona de planícies e entraríamos na cordilheira (range) de brooks, uma zona extremamente montanhosa em que as estradas possuem inclinaçoes imensas e que para descer há que meter uma mudança baixa e mesmo assim ir travando. Passámos por sítios chamados roller-coaster (montanha russa), onde a sensaçao do cimo da estrada era a mesma que estar no topo de uma enorme montanha russa e Atigun pass, parte da "continental divide" (divisória continental), uma zona de avalanches e acidentes, para mim, uma descida assustadora. Até chegar ao árctico passámos por uma série de ecossistemas diferentes, cada qual mais agreste, tanto que chega ao ponto em que deixam de existir árvores. Para além dos muitos camioes, cruzámo-nos com uns quantos motociclistas, carros de turismo (jipes) e alguns ciclistas. Embora seja uma estrada difícil de fazer, com muitos altos e baixos, é, como já disse, uma estrada mítica. Sao muitos (relativamente) aqueles que fazem a estrada em pelo menos um sentido. Confesso que hoje, sinto que gostaria de ser uma dessas pessoas, embora saiba que seja uma ideia louca, que exije uma preparaçao física extraordinária.

Ao longo de várias milhas a estrada corre ao longo de rios. Os rios no alasca sao, pelo menos aqueles que vi, rios diferentes dos nossos, rios glaciares. Sao rios pouco fundos, mas muito largos e com vários canais na altura de menos caudal. Quando a neve derrete ou quando chove muito, tornam-se rios perigosos e de caudais expectaculares. Durante a nossa viagem,tinham pouca água e eram tentadores para pequenos passeios para esticar as pernas, fazer fotografias, procurar rochas bonitas.

Pipeline










Sensivelmente a meio do caminho a estrada estava fechada. Nao foi uma sensaçao agradável pois estávamos algo apertados de tempo e tínhamos uma reserva para uma excursao ao árctico. As excursoes sao apenas duas vezes ao dia, de manha e de tarde e, a nossa era de tarde. A perca da reserva implicaria ou uma total mudança de planos ou, mais grave, a impossibilidade de conhecer o meu segundo oceano. Estivémos quase uma hora parados no meio da estrada, à espera que o trânsito se começasse a mover. Embora a paisagem fosse bonita, com alguns lados ao lado da estrada, as ameaçadoras criaturas que víamos do lado de fora do carro fizeram-nos ficar dentro do mesmo.



Finalmente o trânsito moveu-se e retomámos a conduçao. Foi hora de acelerar um pouco embora nao muito pois o piso era péssimo. Algumas dezenas de milhas antes de Prudhoe Bay tornou-se horrível, com muita gravilha solta. Embora as rectas fossem grandes e a tentaçao de acelerar ainda maior, tivemos que controlar a velocidade um pouco. Se um camiao de várias toneladas e mais de uma dezena de rodas faz essa estrada bem, um jipe relativamente ligeiro tende a fugir nalgumas situaçoes. Finalmente, começámos a ver ao longe torres e edíficios e, pouco a pouco, vimos um imenso complexo industrial surgir diante dos nossos olhos. Como chegámos algo mais que uma hora antes da hora, aproveitámos para almoçar, comprar algumas recordaçoes e dar uma pequena volta pelo sítio.

Limpinho :)



Um dos melhores hóteis do sítio. Para mim apenas uma construçao lego feita com contentores...



À hora marcada chegou o autocarro e um ansioso grupo entrou, expectante para uma aventura que prometia.  E porquê uma excursao perguntam vocês? O acesso ao árctico, nesta zona, é privado, pertencendo às empresas que exploram o campo de petróleo. É certo que a grande maioria do árctico é terreno público, mas nao é menos certo que nao há estradas até lá. Esta é a única estrada, para ir a outros sítios ou uma larga caminhada ou uma viagem de aviao... Antes de nos dirigirmos ao oceano demos uma pequena volta pelo complexo, onde vimos certas estruturas e veículos implicados na extracçao de petróleo e onde nos foi contada a história do sítio. Fiquei impressionado com  o que me foi contado. Como disse no post anterior deste complexo sai a pipeline que leva o petróleo até ao pacífico. Na sua construçao foram gastos aproximadamente 7.000.000.000 dólares. Uma imensa fortuna na minha opiniao. Mas a história nao acaba aqui: há que pagar pela manutençao do local e da linha. Mais grave: no pacífico o petróleo é transladado para petroleiros que o levam para ser refinado em locais longínquos como o Hawai, donde depois é vendido. É um gasto de dinheiro e energia estupidamente grande até chegar ao consuimdor final. pergunto-me como seria o mundo se o dinheiro que é gasto em todo o mundo na exploraçao de petróleo fosse usado em energias alternativas, menos poluentes e agressivas para o nosso mundo. Mas em vez de investir o dinheiro nisso, existe todo um loby para a que o governo abra a exploraçao das areias de petróleo que existem em grande quantidade a oeste de Prudhoe Bay, em pleno coraçao do Alasca e numa zona protegida e ecologicamente importante. É este o mundo em que vivemos, é este o mundo que estamos a (des)construir.




Caribous no meio da exploraçao

Coruja das neves
Finalmente chegámos ao oceano. Embora o mair estivesse acessível, o guia disse-nos que duas semanas antes ainda havia gelo... custava acreditar até que fomos até à água. Estava na agradável temperatura de 2-3 ºC. Aguentei os segundos necessários para fazer as fotos e mal estas foram feitas corri até à areia com os pés a doerem-me imenso e a perguntar-me como podia ser tao idiota :) E nao só a água estava fria, mas o próprio ar estava frio, fazia vento e os salpicos que vinham do mar (ou seria chuva?!) nao ajudavam à festa.

Vencendo o Árctico

A praia

Uma "trilobite" segundo o nosso guia... nao seio que é mas sei o que nao é...

A praia

Depois da excursao era hora de ir para o parque de campismo. Embora a estrada seja enorme e seja permitido acampar ao longo da mesma, em qualquer sítio, queríamos dormir num parque de campismo. É certo que os parques ao longo da estrada sao do mais rústico que há, sem nenhuma barreira entre o exterior e o parque, mas a sensaçao de ter gente a alguns metros de distância dava-nos algum conforto. Afinal, estávamos em "bear country", ou numa traduçao literal, no país dos ursos...

A bomba de gasolina do sítio





Um pouco mais limpo









Depois de uma larga estirada de conduçao, onde todos chegámos mais mortos que vivos, chegámos finalmente ao parque de campismo de Galbraith Lake, um parque sobranceiro ao lago do mesmo nome. Numa área rodeada de montanhas e com o lago a curta distância, o parque de campismo viria a ser um excelente sítio para passar a noite. Era hora de comer algo, beber uma cervejinha e ir dormir. Falando de cerveja, como tem sido hábito nas minhas viagens, tento sempre provar o máximo de cervejas locais. Ao contrário de Portugal, onde temos boa cerveja mas pouco variada, pelo menos em termos nacionais, nos EUA, para além das grande marcas, existem inúmeras micro-cervejarias, e o Alaska nao é excepçao. Ao longo da minha viagem provei várias marcas e variedades e algumas eram excelentes. Aos poucos meses de chegar aos EUA e depois de só beber a cerveja mais comum, nao acreditava nas palavras que o Francisco Viana me disse antes de vir: foi lá que provei das melhores cervejas da minha vida. Hoje, e depois de "abrir" os olhos, tenho que lhe dar razao ;) Depois de encher o estômago, caminha (ou melhor, saco de dormir) e a dormir, que no dia seguinte teríamos mais um dia longo...



Um dos meus amigos poucos segundos antes de perder heróicamente a vida e ser esborrachado ;)

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Alaska - Day 1 - Fairbanks - Marion Creek Campground

Depois de muitos meses de preparação, eis que o tão desejado dia chegava: íamos para o Alasca, duas semanas de viagem num local bem selvagem. A viagem começou em Chicago, pouco antes das 8 da noite, com uma viagem até Seattle. A viagem até Seattle correu bem, sem grandes sobressaltos mas extremamente chata. No assento do meio, com uma pessoa a dormir de cada lado, passaram as horas. Pouco antes de chegar a Seattle, a primeira grande imagem: o monte Rainier, um vulcão sobranceiro à cidade, enorme de tamanho. A paragem em Seattle decorreu sem muitos incidentes, foi uma escala curta e era de noite, estávamos todos cansados.

Monte Rainier
O segundo voo levar-nos-ia até Fairbanks, a última grande cidade no Norte do Alasca. Os companheiros de viagem eram uma boa amostra daquilo que iríamos encontrar ao longo da viagem: gente simples, muito dura. Mais umas horas foram passando e, embora passasse da meia-noite, ia ficando de dia. Chegávamos à zona onde no verão, não existe noite. Iam ser duas semanas em que as lanternas que tínhamos levado não serviriam para nada mais que fazer peso. Embora a maioria do voo tenha sido sobre o Oceano Pacífico, ao entrar em terra, sobrevoámos zonas de montanhas, neve e glaciares.
 
 



A meio entre o Pacífico e Fairbanks a paisagem mudou, deixando de ser montanha para se algo mais semelhante a planícies, zonas de colinas, com muita vegetação e cursos de água. Chegámos a Fairbanks passava da uma da manha local. E o céu era azul claro... Apanhado o táxi, fomos até ao Hotel para o que seria uma das poucas noites que dormíamos num colchão e teríamos direito a um chuveiro...


De manha, já com uma cara muito mais desperta, fomos buscar o primeiro carro da viagem. O plano para os 3 dias seguintes seria ir até ao Oceano Árctico, molhar o pezinho, ver os campos de petróleo e conduzir muitas, muitas milhas na considerada uma das estradas mais inóspitas da Terra (sim, o nosso planeta redondo e azul...), a famosa Dalton Highway. Antes de começar a viagem, uma paragem no Walmart para comprar comida, uma arca térmica e algo muito importante: spray para ursos.

Eu e Maggie

O carro carregadinho (notar a máquina de café)


As primeiras milhas da estrada fizeram-se bem ,pelo meio de florestas e vales, e acompanhados por uma das maiores construções humanas, a trans-alaska pipeline. É um sistema de tubos que percorre perto de 1300 kms, trazendo petróleo desde os campos do Árctico, em Prudhoe Bay, até Valdez, já no Pacífico. Embora durante os 3 dias seguintes fossemos passar por uma multitude de paisagens, esta construção seria uma constante na paisagem.

Trans-Alaska Pipeline

Pequena loja pouco antes da Dalton

Ao fim de algumas milhas, finalmente chegámos à Dalton Highway. Esta estrada é uma estrada maioritariamente de gravilha, terra batida, que chega até Prudhoe Bay. É considerada uma estrada boa para aventureiros, nao só pelo seu tamanho (670 km para cada lado), mas pelo seu destino, as muitas paisagens que percorre e por se ter que percorrer a estrada junto a camiões de 16 rodas geralmente em excesso de velocidade. É, sobretudo, uma estrada industrial que pouco a pouco tem sido descoberta pelos turistas com mais vontade de fazer algo diferente. E, entre esse grupo, encontravamo-nos nós. Para fazer esta estrada tivemos que recorrer a uma companhia de aluguer especial. Nenhuma das companhias tradicionais permite a condução nesta estrada e, devido às condições da mesma, são necessário bons pneus, um carro resistente e um rádio para contactar com os outros veículos na estrada. As regras nesta estrada são também claras: os camioes sao os donos da estrada. Se querem passar, há que chegar-se para o lado e deixá-los passar. Nesta estrada conduzem bastante rápido e é conveniente, para evitar vidros partidos, abrandar ou mesmo parar sempre que nos cruzamos com um deles.




O rádio




A primeira paragem foi em Yukon Bridge, uma estaçao de serviço (?) sobranceira ao rio Yukon. Aproveitámos para esticar as pernas e para meter gasolina. Pagámos pela mesma o preço mais caro desde que estou aqui (como referência onde vivo estava a 3.78 na mesma data). Embora o Alaska seja dos maiores produtores de petróleo, nele se pode encontrar a gasolina mais cara do país.



Pouco depois da Yukon Bridge, parámos num pequeno bar, de aspecto muito manhoso. Era recomendado por um dos guias que tínhamos como tendo um excelente hamburguer, um dos melhores, senão o melhor do estado. Não acho que fosse espectacular, era bastante bom, mas aquela hora e com a fome que tinha teria comido de tudo.





A pipeline ao longo da estrada

À medida que nos dirigíamos para Norte a vegetação ia mudando. Entrávamos na área do permafrost, em que o solo, meio metro-metro abaixo da superfície se encontra congelado todo o ano. Aqui as árvores têm dificuldade em crescer, diminuindo cada vez mais de tamanho. Chegaríamos a um ponto, no dia seguinte, em que as árvores deixariam totalmente de existir, por muitas, muitas milhas...








Ao fim de muitas horas de viagem, chegámos a um dos pontos altos da viagem, algo que tinha sido posto como condição para a viagem: atravessar o círculo polar árctico. Num pequeno desvio ao lado da estrada existe um sinal a marcar o "evento". Nada de especial, mas tão especial que muita gente conduz a Dalton só para fazer a fotografia aqui. Obviamente, tínhamos que marcar a ocasião e fazer como toda a gente: uma fotografia :)



Grayling Lake






Finalmente, chegámos a Marion Creek Campground, o parque de campismo que viria a ser o nosso local de dormida. Rodeado de montanhas, na tundra, era um parque muito rústico. Mas, ao mesmo tempo, era aquilo que procurávamos no Alaska, o contacto com a natureza, ou não fosse este considerado o estado mais "selvagem" dos 50.




Fireweed, uma flor omnipresente (e saborosa :))



Era hora de comer algo e descansar, que no dia seguinte teríamos muito que conduzir... o primeiro dia tinha sido cansativo, mas já sentíamos na pele a aventura em que nos estávamos a meter...