quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Dia 4 - Yellowstone

Mais um dia que começava fresco. Em Yellowstone as amplitudes térmicas sao extremamente grandes, talvez pelo facto de nos encontrarmos no coraçao do continente norte americano a uma altitude superior a 2000 m. O plano para o dia era simples, sem percorrer grandes distâncias, ("apenas" 120 km", ao longo da área sul do parque) mas repleto de coisas bonitas que ver.

A primeira paragem seria num dos pontos mais emblemáticos do parque, aquele que todos conhecem: old faithfull, ou velho fiel, um géiser que desde há muitos anos admira visitantes no parque com a sua pontualidade. Se existem no parque géiseres cuja erupçao se pode prever num período de 5-6 horas, ou mesmo impossíveis de prever, este possui a chamada pontualidade britânica. Quando chegámos ao parque já lá estava muita gente à espera da próxima erupçao. Na falta de um "calendário", perguntámos a algumas pessoas quando era esperada actividade; ninguém fazia ideia. Assim que, lá nos juntámos à multidao, olhando para o ponto donde esperávamos que saísse o jacto de água, que lá ia libertando ocasionalmente algum vapor e golfadas de água.

Nao demorou muito até que finalmente começasse; tivemos sorte nesse aspecto. A erupçao durou alguns minutos, alcançando uma altura no mínimo interessante, assim com o grande volume de água expelido.

Old Faithful Geiser


Vista a erupçao, seguimos um dos trilhos que nos levaria ao longo de uma área extremamente rica em nascentes, géiseres, fumarolas... as surpresas sucediam-se, numa sucessao de cores, formas e cheiros impressionantes. Por muito que tente descrever, é toda uma sensaçao que só se tem estando ali. Independentementeda direcçao onde dirigissemos os olhares, havia sempre algo espectacular, digno de uma fotografia.

Mas, numa área aparentemente tao agreste à vida, esta encontrava-se presente, resistindo a temperaturas perto do ponto de ebuliçao, ou a valores de pH de 1 ou 12. Pequenas algas, bactérias, pululam nestas águas, sendo responsáveis em parte pelo impacto visual: sao bactérias que produzem pigmentos, verdes, amarelos, castanhos... aquelas cores que nos arrancam sons de admiraçao.

As fotografias que meto abaixo foram tiradas em várias áreas do parque, sobretudo em upper e em lower geiser basin. Alguns dos intervenientes nas fotografias possuem nome, outros nao.



Doublet pool


Anemone Geyser




Chromatic Pool



Morning Glory


Castle Geiser


Acabada a visita na área, uma curta viagem de carro levou-nos até Black Sand Basin, uma área junto a um rio de menores dimensoes, mas com várias nascentes com cores extremamente vivas. Uma vez mais, a vontade de dar um mergulho era enorme, mas apenas com uma questao: morreríamos cozidos ou sentíriamos a nossa carne a ser corroída por um forte ácido? Obviamente, ficámos sem resposta :)

Cliff, Black Sand Basin area

Rainbow pool, Black Sand Basin area

Sunset Lake, Black Sand Basin area

E como nao podia deixar de ser, lá teríamos que nos perder. Confiando na (in)habilidade da minha companheira de viagem com os mapas, dirigimo-nos para o que pensávamos ser Biscuit Basin. A primeira milha a andar fez-se bem, mas perto da segunda, e vendo que nao nos dirigíamos para lado nenhum, decidimos que estávamos errados. Mais de uma hora a andar, à hora de almoço, com o sol sem piedade nenhuma de nós, para nada. Aparentemente alguém tinha problemas com escalas... Como tínhamos passado o nosso sítio há muito, decidimos ir para o seguinte: Grand Prismatic Spring. Para além de algumas pequenas nascentes coloridas, um espectacular (e quente) nascente de um azul de fazer inveja às melhores praias, a grande atracçao, a grande fonte prismática. Uma nascente de tamanho bastante superior às outras, cheia de cores e ainda com uma particularidade: o vapor da água reflectia as cores, dando uma sensaçao de continuidade entre a nascente e o vapor... numa palavra, formidável, mesmo correndo o risco de nao conseguir descrever completamente a nascente.

Grand Prismatic Spring area

Grand Prismatic Spring area

Grand Prismatic Spring area

Grand Prismatic Spring area

Grand Prismatic Spring

Grand Prismatic Spring area

Grand Prismatic Spring area

A paragem seguinte seria em Fountain Paint Pot, mais uma bonita área para visitar. O ponto alto, talvez Fountain Paint Pot, com a sua lama borbulhante, ou os esqueletos de várias àrvores, vítimas de súbita mudança na actividade térmica.





Leather pool

Fountain paint pot


Horas depois, muitas fotografias feitas e baterias gastas, chegámos à área de Madison, e fizemos uma estrada, Firehole Canyon Drive, que nos tinha sido recomendada como bonita e boa para dar uns mergulhos. Uma área muito bonita, em que o fluxo do rio era atenuado por uma série de pequenas cascatas e degraus, onde alguns se banhavam. Apesar de termos levado fatos de banho, optámos por nao nadar.

Firehole River

Firehole Falls

Duck lake

Divisória Continental da América do Norte

A última área do dia: west thumb geiser basin. Já começava a fazer frio e o sol a por-se, com as cores a ficarem mais vívidas. Esta área está mesmo junto ao lago yellowstone, sendo que pelo menos dois dos géiseres mais famosos se encontram ou na água, ou sob esta. Enquanto andávamos pela área, tivemos ainda a sorte de nos cruzar com um rebanho de uma espécie de veado cujo nome desconheço em português. Aqui, chamam-lhes "elk". Enquanto esperávamos que se movessem e nos cedessem o passo, o parque está cheio de avisos para manter a distância de qualquer animal selvagem e para nao os molestar, disfrutámos de um belo por do sol, enquanto ao mesmo tempo tínhamos ali mesmo, a meia dúzia de metros, mais de uma dezena destes graciosos animais.


Black pool hot spring



Seismograph and bluebell pools


Já a tiritar, calçoes e t-shirt nao protegem muito quando o sol já nao nos faz companhia em yellowstone, voltámos para o acampamento. Um bom jantar esperava por nós e, mais importante ainda, uma noite de repouso bem merecida...

terça-feira, 27 de julho de 2010

Dia 3 - Yellowstone

Tomado o pequeno almoço, e enviado o primeiro postal, era hora de nos metermos ao caminho. A noite tinha sido bem passada, o cansaço era bastante e tinha tido a oportunidade de estrear o meu colchao de ar: se tenho capacidade para dormir uns dias no chao, apenas com o saco cama de por meio, duas semanas tenho a certeza que iriam deixar muitas mazelas. Assim, decidi fazer um pequeno, mas decididamente correcto, investimento.

Estava um dia bonito, solarengo quando começámos a conduzir. À medida que nos aproximávamos de Cody, a última grande (?) cidade antes de chegarmos ao parque de Yellowstone, começava-se a notar um trânsito algo mais intenso, sobretudo com muitas mais caravanas e motards. A paisagem também mudava gradualmente, de planícies secas e aborrecidas, para alguma elevaçao, com montanhas ainda com vestígios da neve do passado inverno ao fundo. Era nessa direcçao que nos movíamos, e era bem perto que acabaríamos por ficar. Mudava também a elevaçao a que estávamos: se até entao tinhamos estado à volta de 1400m acima do nível do mar, nesta altura começávamos um período de vários dias sempre acima dos 2300m, frequentemente perto dos 3000m.




Cody é uma cidade nomeada depois de William Frederick Cody, também conhecido por Buffallo Bill, um dos fundadores da mesma. É-lhe ainda dedicado um museu, em que se mostra o assassino de índios e búfalos, ups, o grande herói americano que foi. É ainda conhecida como a capital de rodeios do mundo, exemplo da cultura cowboy que aqui se vive, e que faz parte intrínseca da área.


Passada Cody, e atravessado um túnel na montanha, que nos levou de um terreno algo irregular para um vale rodeado de montanhas, que nos levaria até à entrada do parque. Ao longo do vale, montanhas de um e outro lado, e ocasionalmente acompanhávamos também um dos muitos rios que se podem encontrar na regiao. Uma regiao ainda bastante árida, seca, em que a grande maioria da vegetaçao se concentrava perto da água. Aqui e além, ranchos ou pequenos hóteis familiares, que fornecem dormida a quem nao consegue alojamento dentro do parque ou gente na mesma situaçao que nós na noite anterior.



A placa, a placa!! Estávamos mesmo à entrada do parque, era hora de fazer a fotografia da praxe junto da placa, à semelhança do que já tinha feito e se viria a tornar uma rotina (e nao, nao sou louco, pelo menos demasiado, havia mais uns quantos imitadores a fazer o mesmo). Uma vez feita a entrada, a estrada levou-nos rumo ao lago Yellowstone. Mais uma vez, subimos. Mas desta vez, e talvez pela proximidade do lago, existia vegetaçao e sentia-se estar num sítio completamente diferente do de há alguns quilómetros atrás. Pelo caminho, ainda vimos, mesmo ao lado da estrada, alguma neve residual. Em yellowstone, viríamos a sentir na pele, existem grandes amplitudes térmicas, que de certa forma evitam que toda a neve se derreta. A primeira paragem seria o centro de visitantes em Fishing Bridge, para recolher alguns mapas e pedir informaçoes sobre alguns dos trilhos que queríamos fazer. Para lá chegar, teríamos que continuar a conduzir ao longo do lago. Nalguns pontos, pudemos ver fumarolas na margem do lado, com um cheiro bastante característico. Ainda pelo caminho, ainda alguns bisontes, olhando pachorrentamente os humanos que invadiam o seu espaço.




Lago Yellowstone


Recolhidos os mapas e pedidas as informaçoes (por certo, os Rangers que se encontram nos parques sao pessoas bastante afáveis e profissionais, sempre dispostas a ajudar e a esclarecer qualquer dúvida; penso que alguns dos nossos funcionários públicos deviam vir cá fazer um estágio... ou pelo menos assistir-se a mudanças na lei que permitam o despedimento por se ser mau profissional...), dirigimo-nos para o trilho alvo, conhecido por ser dos melhores para se observarem ursos, quer ursos pardos, quer ursos grizzly. Avisaram-nos que sendo só dois nao era seguro irmos sozinhos e que nos deveríamos juntar a um grupo que aparecesse, para aumentar a segurança. Chegando ao início do trilho, encontrámos uma simpática família oriental, à qual nos colámos e que acompanhámos durante o trilho.



O trilho foi feito num trajecto relativamente plano, nao demasiado cansativo ou exigente com o corpo. Ainda assim, embora nao o tenhamos completado, calculo termos feito perto de 5-6 km, ida e volta. Levou-nos pelo meio de uma floresta, por uma zona de incêndios e ainda por uma outra zona que nao percebi, mas que parecia ter sido atingida por um meteorito gigante, tal o estado de devastaçao observado.





Feito o trilho, o resultado final foi um número total de 0 avistamentos de ursos. O maior contacto com animais que tive foi com umas pestes aladas que se empenharam em sugar-me todo o sangue; ao fim do dia contei mais de 16 picaduras de mosquito, a maioria das quais feitas em áreas cobertas por roupa. Eram muitos, dava-lhes igual o protector com o qual me tinha besuntado e pareciam loucos à minha volta. Ao longo desta viagem dei-me conta do fascínio que exerço sobre os mosquitos fêmeas, devo ser extremamente doce tal o fascínio que exercia sobre elas... Tivemos ainda direito a uma chuvada e granizada... sim, granizo em pleno verao e com perto de 30ºC... apenas uma das surpresas que o parque nos reservava!

Tendo em conta que tudo isto foi feito ainda antes de almoço, o plano para o restante dia era ir em direcçao norte, até à área de canyon. O primeiro ponto de paragem seria em Fishing Bridge, que recebe o nome pela ponte que une as duas margens. Notabilizou-se por estar estrategicamente colocada num rio de águas límpidas que fervilha com trutas; mais, extremamente perto situa-se uma importante área de desova. Há uns anos, e para evitar a extinçao da espécie nestas águas, pois o número de efectivos diminuía rapidamente, a pesca foi proibida.



A estrada para norte passava, na maioria do seu trajecto, ao longo da margem oeste de um rio. Uma vista deveras bonita. Numa das paragens, ao lado duns rápidos, encontrámos um simpático pelicano, que pelos vistos é uma ave bastante comum no parque. Ao longo dos dias que lá passei, apenas vi um pelicano, e sempre no mesmo sítio. Seria o mesmo ou seria outra ave?


Mud vulcano, ou vulcao de lama. Uma das áreas mais conhecidas do parque, na qual se encontram fumarolas, géiseres, nascentes de água ou lama a ferver. O cheiro é forte, onde quer que se olhe vê-se vapor e mais vapor. Um local que nao convida à vida, mas que alguns animais, como bisontes, escolheram para ir passar algum tempo. Assim como nós, que decidimos ir fazer o trilho que nos permitiria ver algumas das pequenas maravilhas do parque.

Mud Geiser


Dragon's Mouth Spring




Mud Volcano



Sour Lake

Churning Cauldron



A paragem seguinte seriam Upper Falls e Lower Falls, duas grandes quedas de água ao longo do rio. Com vários trilhos para ser feitos, fizemos a grande maioria deles: ao longo do rio, até ao topo de ambas as quedas de água e ainda até vários pontos de observaçao. Caminhar, caminhámos muito. Num dos trilhos, Uncle Tom's Trail, subimos e descemos ainda um imenso número de escadas ao longo duma das paredes do desfiladeiro, numa descida imprópria para gente que sofre de vertigens como eu. Mas as vistas, o facto de se poder estar naquele sítio, fazem esquecer as vertigens e continuar a andar. Vimos ainda um urso pardo, numa situaçao que, confesso, me fez temer pela vida de algumas pessoas. Na ânsia de fazer uma fotografia, uma grande multidao começou a rodear a zona onde o urso se tinha escondido; para trás, uma descida, pela frente e lados, uma multidao irresponsável que gritava e ia avançando pouco a pouco, em forma de meia lua, encurralando o animal. Quando ele se fartou e começou a correr, obviamente tinha pessoas pela frente; felizmente, foram rápidas para se afastar, caso contrário provavelmente teriam havido feridos.


Upper falls







Lower falls









Inspiration Point

O dia acabava e o cansaço começava a dar mostras de estar conosco. O nosso parque de campismo, em Grant Village, encontrava-se 50 km a Sul. Para lá nos dirigimos, ao longo de rios, ao longo do lago, podendo observar mais algumas das vistas e vida selvagem que o parque nos oferecia.