Faz hoje 3 meses que cheguei ao Estados Unidos. Dentro de aproximadamente uma hora, mais exactamente, faz 3 meses que saí do aviao, o terceiro do dia, em estado semivegetativo e com a cabeça a funcionar a mil à hora.
Nestes 3 meses muito aconteceu, muito mudou desde que cheio de ilusoes e medos saí de Portugal. O motivo... tantos e tao poucos. O desespero, por situaçoes vividas no momento da decisao. O sentir-me "castrado intelectualmente", numa universidade onde se pretende fazer com 8 o que deve fazer com 80. O sentir que todo o esforço, todo o sofrimento tido até à data no meu crescimento, quer como pessoa, quer como cientista estavam a ser em vao.
Hoje sou, pelo menos, nalguns aspectos feliz. Nao mais sinto aquele terror que sentia com o aproximar das segundas feiras. Os domingos voltaram a ser o dia mais feliz da minha semana, aquele que significava que ia voltar ao trabalho, a fazer aquilo que tanto gosto. Ainda a semana passada se felicitava um colega do laboratório por ser sexta. Porquê, perguntei-lhe eu? Está aí o fim de semana, disse-me ele. Dei-me entao conta que sou, novamente, feliz no meu trabalho. Nao me importo de trabalhar as 14 horas por dia que trabalhei esa semana. Nao importa. É o meu trabalho, é aquilo pelo qual me formei e pelo qual tanto sofri lutei. Nao que nao pense nos fins de semana, claro que penso. Continuo a ser aquele que adora passear, conhecer sítios novos. Mas... fazer-se o que se gosta, aquilo para que se trabalhou, e ver-se o resultanto de tanto suor e lágrimas...
Nao tem sido no entanto fácil estar aqui, lidar com todas estas mudanças, estas diferenças. O choque cultural foi, e continua a ser, um dos grandes inimigos. A saudade; nao é fácil estar, uma vez mais, longe de todos e tudo aquilo que nos diz alguma coisa. Olhando para trás, nos últimos 6 anos, vivi em 3 cidades de 3 países diferentes. Quando pensei que pudesse poder fazer uma vida, eis que de novo embarco rumo a novas aventuras. A diferença horária. Custa chegar a casa, e nao poder ligar para Portugal. O dia aí começa bem mais cedo e acaba do mesmo modo. Nao encontro por aqui ninguém com quem poder trocar umas palavras. Aquelas que troco sao em troca de minutos roubados ao meu trabalho. E por fim, aquilo que faço. Nunca na minha vida tinha ouvido falar da equaçao de Michaelis-Menten, em colunas de cromatografia, em induçoes de expressao. Tem sido uma luta meter-me a par de tudo aquilo que tenho que saber para cumprir com aquilo que me é pedido. Afinal, sou veterinário. Nao tive formaçao para o que estou a fazer. Ou se tive, nao prestei atençao. Hoje nao sei bem aquilo que sou, nao um veterinário no sentido mais comum da palavra, mas mais bem uma mistura. Um cidadao da ciência :)
Mas bem. Há que fazer valer a pena tudo aquilo porque estou a passar, tudo aquilo de que abdiquei. Nao foi pouco, talvez hoje a decisao tivesse sido outra. Mas há que assumir aquilo que se decidiu e lutar por aquilo em que se acredita. Faltam 21 meses para acabar o meu contrato aqui. Faltam 21 meses para abandonar os Estados Unidos. Para onde? Era bom que Portugal. No entanto, só o tempo o dirá, o que acontecer até lá. Nao direi que o fuuro a Deus pertence, siplesmente porque em tal nao acredito. Pertence-nos a nós, e dele sairá o que nós decidirmos que saia.
Nao estou sozinho neste mundo...








